O QUINTO DESPERTAR

CAPÍTULO 1 - A CHEGADA

O celular tocou.

— Adam... São 3 horas da manhã. — A mulher falou sonolenta assim que colocou o aparelho no ouvido. Ela estava em um sono profundo, tranquilo, aproveitando a metade dos seus quinze dias de férias. Agora, Adam a acordava de madrugada. Seu pensamento ainda estava lento demais para entender que aquilo era um sinal de risco, de que algo não estava certo.

— Mary, preciso que olhe a janela. Olhe a janela. — O Diretor Adam Jones estava falando sério, com uma urgência que Mary raramente ouvia.

Mary se levantou, ligeiramente contrariada, e caminhou até a janela do quarto, ainda com o celular junto ao ouvido. Abriu as cortinas. Do último andar de um edifício luxuoso, Mary tinha uma vista privilegiada de Nova York. Prédios, avenidas e milhares de luzes compunham aquela paisagem familiar. Mas, naquela madrugada, havia algo que não pertencia à cidade.

O ar escorreu para fora dos pulmões de Mary enquanto seus olhos azuis marejavam de pavor ao ver aquela imensa, colossal, inexplicável estrutura pairando como se não coubesse naquela imagem. Por cima, linda! Um formato semelhante a um diamante, com as estrelas e galáxias do universo projetadas em sua superfície superior. E por baixo, grotesca. Com cascatas negras pontiagudas, caóticas, com milhares de pontos luminosos, talvez milhões, como uma imensa cidade sombria de arranha-céus de ponta-cabeça.

— Está vendo?

— Sim. — Eles ficaram em silêncio por um momento enquanto Mary processava o que via. — O Presidente já sabe? — Ela perguntou ao Diretor do Serviço Secreto.

— Sim. Precisamos que venha ao Pentágono, estamos enviando um helicóptero para buscá-la.

— Mas é seguro? Essa... nave... atacou?

— Até onde sabemos, não houve nenhum ataque. Apenas desceu na frente da sede da ONU. Isso provavelmente é um sinal de... diplomacia. — Ele estava inseguro. 

— Estou arrumando minhas coisas, espero o helicóptero no heliponto. — Afinal, sua cobertura era uma das poucas em Nova York que contava com um.

Como Secretária de Segurança Interna, mesmo de férias, Mary estava sempre preparada. Sua mala já estava pronta e sua roupa já estava separada. Naquela madrugada, ela vestiu uma calça de alfaiataria na cor bordô, com a barra na altura perfeita do seu scarpin bege. Escolheu uma blusa de botões, em tecido leve, num tom discreto de rosa-acinzentado. Lavou o rosto pálido e bem cuidado, escovou os dentes, penteou os cabelos loiros para trás, e passou uma maquiagem leve, de cores naturais. Mas dessa vez se esqueceu de passar o perfume. Sua cabeça estava em um silêncio perturbador. Ela apenas estava fazendo o que precisava ser feito e, quando ficou pronta, o helicóptero ainda não havia chegado. Mary se aproximou novamente da janela e olhou aquela imagem como se precisasse ver de novo para talvez acreditar. Ela continuava lá... Uma nave alienígena gigantesca. Ela só pairava, nenhum barulho, nenhum vento, nada... Só aquela vista perturbadora. Grosseira e ao mesmo tempo... Linda.  Mary estava com medo..., mas talvez necessidade de compreender o que via parecia ainda maior. E o celular tocou novamente.

— Christopher. — Ela atendeu o Secretário de Defesa, Christopher Morgan.

— Mary, o helicóptero já chegou?

— Não, mas já estou pronta.

— Está olhando a nave?

— Sim. Não mudou, não se moveu. Continua parada.

— Bem. Estou ligando a pedido do Presidente para informá-la das medidas iniciais. — Mary escutou. — O exército já está indo ao local isolar toda a área. O espaço aéreo está fechado, com exceção para seu helicóptero. A aeronáutica está de prontidão. O prefeito já está organizando a cidade. As redes de comunicação já foram orientadas. — Ele respirou fundo. — A nave ainda não respondeu a nenhuma tentativa de contato. Na realidade, sequer sabemos se a nave recebeu nossa chamada.

— Nenhum sinal de hostilidade?

— Até o momento..., o único sinal de hostilidade foi chegar sem avisar.

Mary e Morgan se calaram, mesmo sem desligar o telefone. Nenhum dos dois parecia saber muito bem o que pensar. Quando o som do helicóptero se fez presente, Mary se despediu e subiu no veículo. Estava gelado ou era apenas o medo? Os olhos brilhantes, marejados e assustados da bela mulher não desgrudaram da nave durante toda a viagem, enquanto era possível vê-la. Era tão imensa que era maior que muitas cidades.... Como aquilo poderia aparecer ali naquele momento? Nada era mais urgente agora que entender o que era aquela nave...

Mary consultou o celular, nenhuma chamada de sua mãe. Provavelmente dormindo tranquilamente. Ela deixou apenas uma singela mensagem. “Bom dia, mãe! Estou bem e trabalhando. Assim que eu chegar em casa, eu te ligo, não se preocupe.” Afinal, Mary não queria assustar sua mãe ao saber da invasão através da televisão.

Durante toda viagem, Mary teve pouco tempo para assimilar o que havia visto. Seu celular tocava o tempo inteiro, com autoridades das mais diversas áreas procurando informações e orientações. Por outro lado, Mary também ligava e enviava mensagens, comandando e organizando equipes para garantir a segurança de pessoas importantes. Além disso, selecionou e convocou os responsáveis pela comunicação ou as possíveis interferências ou ataques às redes de rádio, telefonia ou qualquer ambiente virtual. A viagem percorreu o caminho na velocidade de sempre, mas a impressão que Mary teve, foi de que havia passado muito mais rápido.

O helicóptero de Mary não era o único que estava chegando ao Pentágono no início daquela manhã. O sol estava prestes a nascer, mas a Secretária de Segurança nunca havia visto os corredores tão movimentados. Ela chegou tarde... mas tudo estava funcionando perfeitamente sem ela. No caminho para a sala de conferências, Mary foi recebida por Adam, o Diretor do Serviço Secreto, um homem branco, alto, forte, cabelos pretos. Um profissional de carreira, bastante experiente apesar de jovem, com 42 anos de idade.

Ele caminhou ao seu lado enquanto a atualizava de todas as informações importantes, inclusive de que o Presidente já estava presente e prestes a falar.

A sala de conferências era enorme. Em torno de uma mesa comprida, autoridades de diferentes setores da segurança nacional trabalhavam diante de computadores, documentos e relatórios. Assessores acompanhavam as discussões, alguns de pé, outros acomodados nas cadeiras logo atrás. Mary se sentou na cadeira reservada ao lado direito do Presidente, que estava sentado na cabeceira.

— Presidente. — Cumprimentou a mulher. — Perdoe o atraso, eu estava...

— De férias, eu sei. — O velho não estava bravo, apenas muito preocupado. O Presidente George McNair era um senhor de 77 anos de idade, com os cabelos completamente brancos, alto e Mary estava o achando magro demais. — Estão todos prontos? — Ele perguntou em voz alta. Foi então que Mary ergueu os olhos para o imenso telão à frente da mesa. Nele, estavam conectados chefes de Estado e de governo de diversos países, inclusive representantes de Nações que mantinham relações hostis com os Estados Unidos, além de aliados e adversários históricos... Todos ali. Mary nunca havia visto uma reunião daquela magnitude, principalmente no tempo recorde que havia sido organizada. A ONU conseguiu reunir todos com relativa facilidade, uma vez que aquela invasão, certamente era prioridade máxima para todos os chefes de Estado. No Japão, a notícia chegou no meio da tarde. Na Coreia do Norte, o governo tentava controlar o que seus cidadãos sabiam. Irã, Rússia, China... E Presidentes que ela sequer conhecia estavam atentos ao que o Presidente americano iria falar.

E quando todos estavam prontos, o Presidente americano começou sua fala de modo técnico e objetivo, informando aos outros países o que eles precisavam saber.

— A nave desceu às 3 horas da madrugada em horário de Washington, D.C, em frente à sede da ONU em Nova York. Não foi detectada e continua não sendo detectada por nenhum sensor, nenhum radar. A Nasa não detectou a aproximação nem a existência de outras naves na órbita da Terra. Não responde nenhuma tentativa de comunicação, não emite nenhum sinal. Não interfere em nenhum sinal de rádio, comunicação, não interfere no solo sob ela, não existe sinal de propulsão conhecido, não interfere na temperatura do ambiente. A única forma de perceber a existência dela é observando. — Ele respirou fundo, parecia mais do que cansado, parecia receoso, como se não fosse capaz de suportar aquele peso. Afinal, quando ele quis se tornar Presidente dos Estados Unidos, não imaginou nada daquilo. — Agora, falando da parte comportamental, apesar da invasão, a nave não apresentou movimentação após sua chegada, não apresentou nenhum sinal de ataque ou de hostilidade, inclusive, não identificamos nenhum ataque tecnológico, todos os nossos sensores, comunicação, energia, estão funcionando perfeitamente bem. — Ele parou para verificar um papel ao seu lado e continuou em seguida. — Outros países até o momento não identificaram visita, ataque, comunicação da nave ou de outras naves semelhantes. — O Presidente americano largou a papelada e olhou para a grande tela onde seus colegas chefes de Estado estavam observando. — Preciso ressaltar que a nave parou diante da sede da ONU, o que representa, acreditamos, conhecimento sobre nossas instituições políticas, incluindo o ambiente de diálogo e negociação soberana entre os países. O que possivelmente significa que a nave pretende participar desse espaço de negociação. — Continuou. — Senhoras e senhores, líderes de todas as Nações, aliados e até então adversários..., a conclusão que chegamos aqui e em conversa com outras Nações..., só pode ser uma: Nós não estamos sozinhos.

 

A reunião seguiu por horas e horas. Àquela altura, a maioria dos chefes de Estado já haviam falado às suas Nações para tranquilizá-los. Mas dentro daquela sala nada estava tranquilo. Mary conhecia bem o Presidente, ele a viu crescer. Ele era amigo de seu pai desde a juventude, trabalharam juntos por anos. E mesmo com toda a formação, credenciais e experiência de Mary, ela desconfiava que houve um favorecimento na escolha dela como Secretária de Segurança dos Estados Unidos. Ela era muito jovem, apenas 38 anos. Uma mulher que precisava e pretendia, todos os dias, provar que merecia ocupar o cargo que ocupava. Ela observou George trabalhando, um senhor de idade disfarçando muito bem sua preocupação..., mas não para ela. George estava com medo, com muito medo e ela notou isso.

Enquanto o Presidente havia saído, Mary e o Secretário de Defesa, Christopher Morgan almoçaram juntos naquela mesa de trabalho, despachando ordens, organizando equipes, trabalhando para que a cidade e o país não entrassem em um caos profundo com aquela aparição. Ambos atravessaram a tarde e ao início da noite a maioria dos acordos já haviam sido feitos, os grupos de trabalho estavam formados, a estratégia prévia de atuação já estava em execução e finalmente ela pode ir para casa descansar.

 

Os meses se arrastaram, as estações mudaram e a nave continuou quieta. Pessoas que fugiram para o campo aos poucos retornaram para seus lares. Aqueles que haviam abandonado seus empregos, aos poucos, retomaram ao trabalho. Alguns templos esvaziaram, outros se encheram. Enquanto alguns encontravam conforto na fé, outros sucumbiam ao desespero. Com o tempo, a vida voltava ao normal e a nave era apenas mais uma das muitas coisas que a humanidade não conseguia explicar, mas precisava conviver.

Mas nos bastidores, a conversa era outra. O que aquela nave estava fazendo ali? Por que estava parada? Por que não respondia? Havia invadido o planeta Terra e não havia dado nenhuma explicação. As tentativas de comunicação eram insistentes e variadas, mas nada adiantava. Ameaças foram feitas, caças tentaram se aproximar, testaram armamentos, nada atingia a nave. Nada. Restou apenas esperar. Cientistas faziam suas pesquisas, militares faziam suas rotinas...

Até que um dia, seis meses depois, Mary estava na sala de monitoramento do Serviço Secreto, observando os trabalhos presencialmente, como costumava fazer com alguma frequência. Tudo parecia normal, até que um agente exclamou assombrando:

— Conseguimos! Conseguimos contato! A nave abriu um canal de comunicação!

Mary correu até o agente e iniciou a comunicação através do aparelho insistentemente ignorado. Ela não sabia o ouviria do outro lado, se entenderia, se seria um sinal, uma ameaça, um aviso... Assim que colocou o aparelho no ouvido, silenciou. O que ela diria? “Alô”? Não.

— Secretária de Segurança Interna dos Estados Unidos da América, Sra. Mary Alabai. — E continuou de modo firme. — Você está pairando em espaço aéreo soberano. Identifique-se imediatamente. — A resposta não demorou. E não importava qual fosse ou o que fosse, ela assustaria. Esperavam tudo, menos um... “Oi, Mary”. Uma voz masculina, clara, calma, em um inglês perfeito, estranhamente humana.

— Pode me chamar de Noak... Eu sou um amigo.